Turismo de Base Comunitária

Receptivo de Ararapira Foto: Rose

A entrevista é com a professora do curso de graduação de Tecnologia em Gestão de Turismo, pela UFPR LITORAL (Matinhos /PR) Beatriz Leite Ferreira Cabral.

Ela é doutoranda do Programa de Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social, pela UFRJ e coordenadora de projetos de extensão universitária que visa o fortalecimento do Turismo de Base Comunitária no Litoral do Paraná desde 2015. Participa da construção do planejamento da Rota Caiçara de Cicloturismo desde 2020, e neste ano de 2021 tem participado da organização de debates sobre o Projeto de Lei de Turismo de Base Comunitária do Paraná.

O Turismo de Base Comunitária gera uma troca de experiência importante de saberes entre turistas e moradores de comunidades tradicionais. Poderia definir o conceito dessa modalidade de turismo?

O Turismo de Base Comunitária não é exatamente um segmento, mas uma modalidade de turismo que pode estar associada a diversos segmentos do turismo. Existem diversas definições sobre Turismo de Base Comunitária, também chamado de TBC. Não há um consenso. Um dos aspectos centrais é o engajamento da comunidade, de grupos comunitários, famílias ou redes que se organizam coletivamente em propostas de turismo que valorizam práticas culturais como a culinária, dança, o canto, a fala, os modos de fazer rede, construir canoa, de plantar, pescar, fazer artesanato, de reconhecer a flora local e conhecer sobre o hábito de espécies da fauna.Os momentos de convívio e partilhas entre visitantes e pessoas das comunidades visitadas é um diferencial do TBC e para isto, é importante que os grupos sejam reduzidos, pois não é um turismo que consegue receber públicos muito ampliados, tendo em vista o limite dos espaços de convivência e a importância de uma interação mais personalizada entre visitantes e moradores. Como exemplos de TBC podemos aqui citar o caso do turismo rural da Acolhida da Colônia, em SC e o Ecoturismo de Base Comunitária na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (AM). Percebemos que na pandemia, por conta da tendência de crescimento do turismo de curtas distâncias e busca por locais que tenham cultura e natureza pulsantes, o Turismo de Base Comunitária passou a ter uma visibilidade ainda maior.

 

Qual a importância desse tipo de turismo para as comunidades e para os visitantes que buscam essa experiência?

No Turismo de Base Comunitária os visitantes têm uma experiência única de conhecer lugares, pessoas e histórias com quem vive em determinado território, que chamamos de “anfitriões”. Para os visitantes, este é um modo de viajar que possibilita uma interação diferenciada com os lugares visitados, em que é possível aprender diversas coisas sobre modos de vida, sobre a memória, sobre a relação das pessoas com natureza. Para os moradores, um aspecto bem interessante é a valorização do conhecimento que possuem, que muitas vezes não é um conhecimento que vem apenas da escola mas que está muito relacionado às histórias e aprendizados que são passados de geração pra geração, que surgem da experiência cotidiana e que estão sempre em movimento, porque a cultura é dinâmica! Existem estudos que indicam que o TBC favorece a permanência das pessoas no seu local de moradia, evitando que tenham que buscar trabalho fora de sua comunidade, muitas vezes um trabalho que não tem nenhuma relação com o território.

 

O turismo como um todo passou por grandes dificuldades e transformações durante o período da pandemia e não foi diferente com o TBC. Como as comunidades que trabalham com essa modalidade de turismo lidaram com esse período dificil?

As famílias que trabalham com TBC tiveram que se preparar para que o turismo nas comunidades não fosse uma forma de colocar em risco as pessoas das comunidades e os próprios visitantes. No litoral do Paraná, algumas iniciativas foram e permanecem paralisadas, outras já retomaram e estão funcionando com medidas de segurança e também temos propostas que surgiram durante a pandemia e que estão para serem estreadas no segundo semestre de 2021.

 

Quais as principais ações para a retomada das atividades do Turismo de Base Comunitária do litoral paranaense?

Roteiros, vivências e serviço de alimentação na comunidade passaram a funcionar com número reduzido de pessoas e mediante agendamentos. Algumas pessoas adaptaram a forma e local de atendimento ao visitante e é exigido o uso de máscara durante a realização dos passeios e permanência na comunidade. Nós da UFPR LITORAL estamos realizando um processo de assessoria às pessoas da Rede Anfitriões que têm dúvidas sobre como planejar e trabalhar com roteiros de TBC em suas comunidades, como atender a grupos de visitantes na pandemia, entre outras questões que acabam surgindo. Neste período também estamos criando, através da parceria de dois projetos e um programa de extensão universitária, a Rota Caiçara de Cicloturismo, sendo que em municípios como Guaraqueçaba, algumas comunidades serão incluídas como possibilidade de visitação ao longo do percurso.

 

Onde se pode vivenciar a cultura do nosso litoral através do Turismo de Base Comunitária?

Existem pessoas que estão preparadas para receber os visitantes em suas comunidades com segurança, vontade e muita disposição! A Rede Anfitriões do Litoral reúne pessoas que se organizam de modo familiar para fazer passeios na baía, em trilhas, oferecer pratos da culinária local, mostrar, e pra quem quiser aprender também, sobre as aves, sobre os manguezais, rios e morros; fazeres associados à produção de farinha, da pesca, nas roças e quintais. Com o avanço da vacinação na região, possivelmente teremos muitas novidades para o segundo semestre. Atualmente a UFPR litoral apoia processos de construção de parcerias com as comunidades, com a Rede Anfitriões, com organizações como ADETUR LITORAL, Grande Reserva Mata Atlântica, PARANÁ TURISMO, IPHAN, gestores do ICMBio e prefeituras do litoral, visando o debate sobre política estadual do TBC e para ampliar a comercialização e visibilidade do Turismo de Base Comunitária. Esperamos que o TBC seja uma via para promover a sustentabilidade.

Convido a visitarem a página do facebook e instagram.

https://www.facebook.com/anfitrioesdoturismolitoralPR/

Fotos da Galeria

Receptivo do Ararapira Foto: Rosinilda Santana

Pratos a base de siri (comunidade do Costão de Guaraqueçaba) Foto: Joicely Mendes

Culinária Caiçara Foto: Neliane Mendes

Produtoras de cataia (comunidade Arapira de Guaraqueçaba) Foto: Rosinilda Santana

Família anfitriã em Piaçaguera (Paranaguá)  Foto: Ytalo Augusto

Foto: Beatriz Leite Ferreira Cabral

 

 

 

Carla Nagibe

Carla Nagibe é jornalista, formada em Letras, Gestão de Turismo e especialista em Administração de Marketing.

Apaixonada pelo Brasil e por viagens, aborda nessa coluna aspectos que relacionam o turismo ao desenvolvimento das cidades, culturas locais, gastronomia, produtos turísticos e tudo que estiver relacionado a esse instigante universo.

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